Ultimamente tem sido esta a principal questão da campanha, com sectores liberais que se afirmam favoráveis à despenalização a admitirem abster-se, ou mesmo votar "não", se o aborto for integrado no Sistema Nacional de Saúde e for genericamente financiado pelo Estado, isto é, pelos contribuintes.
Devo começar esclarecer que, por princípio, não me parece correcto serem os contribuintes a financiarem os abortos. Há excepções importantes, que enumero desde já. Em todos os casos em que, com a lei em vigor, o aborto é legal, este deve ser financiado pelo Estado, uma vez que são casos de saúde pública. Da mesma forma, os abortos por parte de adolescentes também devem ser financiados pelo Estado, qualquer que seja a situação da grávida, mesmo que o seu nome de família seja Mello ou Champô-Limão.
Agora, para mim, por uma questão de princípio uma mulher adulta que peça para abortar, sem mais nenhum motivo especial (e dentro do prazo válido), deve poder fazê-lo em liberdade e segurança (é disso que se trata), mas deve ser responsável pelo seu acto, nomeadamente pelo pagamento dos encargos associados.
Tomemos o seguinte exemplo. Um casal não usa contraceptivos, porque "é pecado". Depois a mulher engravida, e tem de fazer o "desmancho": "tem de ser". Voltam a ter relações sexuais. Não tomam precauções porque "é pecado". A mulher volta a engravidar e a fazer o "desmancho". E assim sucessivamente. Não julguem que este cenário é assim tão raro. Sei de casos assim: apesar de já terem feito vários abortos, no referendo vão votar "não", obviamente porque "é pecado". Na impossibilidade de argumentar racionalmente com o "é pecado", e não tendo o Serviço Nacional de Saúde de sustentar eternamente estes casos, não vejo outra solução que não seja responsabilizar os "pecadores".
O único senão que eu vejo é mesmo o flagelo do aborto clandestino, que é afinal tudo o que está em discussão. Ao contrário do que nos querem convencer os partidários do "não", o que está em discussão não é se vai passar a haver abortos. Os partidários do "não" gostam de nos falar como se só passasse a haver abortos se o "sim" ganhasse, mas abortos sempre houve e sempre continuará a haver. O que está em discussão é se esses abortos podem ser realizados de uma forma livre e segura, ou se devem continuar a ser feitos clandestinamente.
Ora, se o aborto for liberalizado mas se for somente o mercado a decidir o seu preço, isto é, se for um negócio privatizado, o mais provável é que continue a ser mais barato fazer um aborto clandestino e sem condições, pelo que as pessoas de menos recursos continuarão a recorrer a este. Ou seja, na prática pouco ou nada se estará a alterar para estas pessoas, justamente as mais necessitadas.
O que eu defendo, assim, é que o aborto seja pago, por uma questão de princípio (o "tendencialmente gratuito" da Constituição não se aplica aqui), mas que seja o Estado a regular toda esta actividade e a controlar os preços. Como defendo para muita coisa, nomeadamente tudo o que seja relacionado com medicina privada. É a economia, estúpido. É evidente que os nossos amigos blasfemos nos dirão que não, que o melhor para o consumidor é que o mercado seja sempre completamente livre, incluindo o dos abortos. Esta é uma discussão que já temos vindo a ter desde que há blogues. É uma discussão de modelo económico, que não tem nada a ver com o que está em discussão no próximo referendo. Ao contrário do que certos sectores extremistas defensores do "não" nos querem convencer, nada obriga o governo, na hipótese de o "sim" ganhar, a indicar que os abortos sejam feitos no Serviço Nacional de Saúde. Se o "sim" ganhar, um governo de blasfemos poderá defender que seja feito em clínicas privadas. São leis simples de financiamento que, como nota Carlos Abreu Amorim numa série de textos notável, poderão ser alteradas por qualquer governo que tenha condições para isso, sem recurso ao referendo. O que vai a referendo é a legalização do aborto até às dez semanas. Nada mais do que isso. Desde que isto fique claro, a discussão do financiamento não é para se ter agora. Não é agora que vai ser decidida.
Publicado originalmente no Cinco Dias.
Friday, January 12, 2007
Já me esquecia do Sassetti

Antes de partir para a Patagónia fui ver o espectáculo e fartei-me de ouvir o disco (que é excelente). Agora fui dar com uma crítica de João Carneiro, no Expresso, que corresponde exactamente à minha opinião sobre o espectáculo. Aqui vai:
"Mais ambicioso, do ponto de vista da estrutura e da forma, é o espectáculo de Bernardo Sassetti, Unreal - Sidewalk Cartoon, apresentado no São Luiz, entre 14 e 23 de Dezembro. A música, de Bernardo Sassetti, alterna secções essencialmente tímbricas e rítmicas com secções essencialmente melódicas, é correctamente concebida e, principalmente, irrepreensivelmente executada pelo compositor, ao piano, pelo grupo Drumming, de Miguel Bernat, e por mais alguns músicos. Há também uma narrativa, de carácter surrealizante e absurdo, sem chegar a ser nada destas coisas, sobre uma epopeia irónica e cómica para desenvolver um plano de carácter musical junto de massas trabalhadoras, e é aqui que as coisas começam a resvalar. A narrativa parte de um livro escrito por Bernardo Sassetti e é cenicamente realizada em voz «off» e em filme de animação. As imagens são interessantes e cuidadas, mas os filmes são longos e o texto é pobre e pretensioso. Pior, esta dimensão ficcional é acompanhada por uma espécie de teatralização em que alguns dos músicos, mas principalmente Bernardo Sassetti, intervêm, contando ainda com a participação de Beatriz Batarda (em Lisboa). O resultado é parecido com o constrangimento que sentimos quando vemos pessoas fazer em público brincadeiras que nunca deveriam ter saído da mais estrita privacidade;geralmente, e para bem de todos, fazemos de conta que aquilo não aconteceu."
Thursday, January 11, 2007
Robert Anton Wilson (1932-2007)

«In the first Vision, they saw Yahweh, a neighboring god with a world of his own which overlapped theirs in some places. He was clearing the set to change its valence and start a new show. His method struck them as rather barbarous. He was, in fact, drowning everybody -- except one family that he allowed to escape in an Ark.
"This is Chaos," said Hermes. "That Yahweh is a mean mother', even for a god."
And they looked at the Vision more closely, and because they could see into the future and were all (like every intelligent entity) rabid Laurel and Hardy fans and because they were zonked on the weed, they saw that Yahweh bore the face of Oliver Hardy. All around him, below the mountain on which he lived (his world was flat), the waters rose and rose. They saw drowning men, drowning women, innocent babes sinking beneath the waves. They were ready to vomit. And then Another came and stood beside Yahweh, looking at the panorama of horrors below, and he was Yahweh's Adversary, and, stoned as they were, he looked like Stanley Laurel to them. And then Yahweh spoke: "Now look what you made me do," he said.»
- The Illuminatus Trilogy
(Robert Anton Wilson morreu esta madrugada, pela segunda e última vez. Mais pormenores aqui)
Uma história da vida real
Hoje vi uma situação muito engraçada no supermercado, mas suspeito que contada não terá a mesma graça, portanto não a vou contar.
He had me at 'uh'
Dois excelentes blogues que descobri este ano: um é um amigo pop e, pelos vistos, anda nestas coisas quase desde o início. Escreve coisas como esta, de 3 de Dezembro: «uh, está aqui uma aranha a explorar o móvel, falta-lhe uma perna, um insecto sem simetria, quem consegue matar um aranha deficiente? eu não. mais coisas que estão a acontecer: Joanna Newsom, ...acho que estou a ficar velho. comecei a gostar de roupa de velho. gosto da "Young Folks" por causa do we don't care about the young folks quando toda a gente gosta é do assobio. aquela ideia de fazer comemorações etílicas acho parva. ando cheio de tosse, estou constipado. é sempre assim: a ideia de fumar é repelente mas depois reaprendo. estou a fumar e a beber moscatel. o meu plano para 2007 é não ter doenças.»
O outro blogue é o Analfabeto, do qual, nesta altura da minha vida, gosto mais do que gosto de manteiga, por exemplo.
Não ultrapassem um escorpião!
Quando estava nos EUA e coimprei o único carro que tive até hoje, ao preencher o formulário com os dados do carro para a seguradora achei estranho ter de indicar a cor do carro. Só mais tarde vim a descobrir que o valor a pagar variava conforme a cor do carro, pois as estatísticas indicavam que carros com certas cores tinham maior probabilidade de terem acidentes do que com outras. À cabeça estavam os carros vermelhos: quem escolhesse um carro vermelho era esperado ser um condutor agressivo, uma vez que o vermelho é tradicionalmente associado a carros desportivos como os Ferrari.
É claro que a aplicação cega de tal estatística não contempla possibilidades como um condutor não poder escolher a cor do seu carro. Foi o meu caso, quando comprei o meu: no stand, do modelo que eu queria, só havia – adivinhem! – carros... vermelhos! (Não que eu não goste da cor, para um carro, que gosto.)
Espero que, com o estudo agora divulgado, as mesmas mentes não se lembrem de fazer depender o preço do seguro do signo astrológico do segurado. Para além do absurdo da medida, tal considerar-me-ia, mais uma vez, um condutor agressivo, de acordo com os resultados divulgados na edição em papel do DN. Acho que quando voltar a ter um carro vou pôr um autocolante: “escorpião ao volante”.
É claro que a aplicação cega de tal estatística não contempla possibilidades como um condutor não poder escolher a cor do seu carro. Foi o meu caso, quando comprei o meu: no stand, do modelo que eu queria, só havia – adivinhem! – carros... vermelhos! (Não que eu não goste da cor, para um carro, que gosto.)
Espero que, com o estudo agora divulgado, as mesmas mentes não se lembrem de fazer depender o preço do seguro do signo astrológico do segurado. Para além do absurdo da medida, tal considerar-me-ia, mais uma vez, um condutor agressivo, de acordo com os resultados divulgados na edição em papel do DN. Acho que quando voltar a ter um carro vou pôr um autocolante: “escorpião ao volante”.
Wednesday, January 10, 2007
A practical purpose
« Anagrams had a practical purpose for some people, as a method of concealing their real name. Voltaire, whose real name was Arouet, formed his pseudonym by making an anagram of Arouet L. J. (le jeune) using the 'u' as a 'v' and the 'j' as an 'i'. Casanova gave the reason he suspected for this name-change in his History of My Life: "Voltaire would never have attained immortality with the name of Arouet. . . He would have lost all self-respect if he had constantly heard himself called à rouer ('whipping-boy')". »
(The Oxford Guide to Word Games, p. 75)
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