Monday, February 4, 2008

Carnaval em Lazarim (2007)
















Em 2007 visitei Lazarim durante o Carnaval e falei disso neste post. Trata-se de uma festa popular famosa em todo o país por causa das suas belas máscaras de madeira.
Pode ver uma selecção das fotografias que então fiz clicando AQUI


Sunday, February 3, 2008

Chico Buarque - Vai Passar


Bom Carnaval para todos!

Saturday, February 2, 2008

O futuro das previsões

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Jacques Attali, que foi conselheiro de Estado de Miterrand durante dez anos, publicou em 2006 "Une Brève Histoire de l'Avenir", traduzido pela Dom Quixote e publicado em 2007 como "Breve História do Futuro".

Sou sempre seduzido por esta ambição de divisar o amanhã em especial, como é o caso de Attali, quando tem o desplante de afirmar que o estudo do passado permite predizer o futuro.

Como diz Soros (e outros), sendo nós simultaneamente sujeito e objecto das previsões, ao prevermos estamos já a modificar o que pensávamos ter previsto; então é legítimo encarar as previsões como manobras para produzir o futuro.
Do meu ponto de vista as previsões não devem ser avaliadas pelo grau da sua concretização futura, que quando se constata não passa de uma curiosidade, mas sim pela influência que exerceram na sociedade enquanto o futuro estava a ser forjado.

A recente leitura de Attali vem curiosamente retomar o curso dos pensamentos que eu tinha iniciado com os artigos "A Utopia e as malas Vuitton" e "Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe". Em qualquer dos casos a mesma preocupação: o défice do pensamento de esquerda relativamente ao futuro ou, se quisermos, do pensamento utópico. Pelo meio ficou uma outra leitura, "A Pobreza do Historicismo" de Karl Popper, que ainda não comentei mas que, avanço desde já, não me convenceu por razões que este texto ajudará a perceber.

Attali dedica os primeiros capítulos à revisão e interpretação do percurso histórico. Primeiro em termos bastante vagos:

"... podemos considerar a história da Humanidade como a sucessão de três grandes ordens políticas: a Ordem Ritual, em que a autoridade é essencialmente religiosa; a Ordem Imperial em que o poder é sobretudo militar; e a Ordem Mercantil, em que o grupo dominante é aquele que controla a economia."

Depois Attali analisa com algum detalhe as nove formas que a Ordem Mercantil assumiu ao longo da história e que ele associa a cada uma das cidades-coração que se sucederam: Bruges, Veneza, Antuérpia, Génova, Amesterdão, Londres, Boston, Nova Iorque e Los Angeles.
Segundo Attali, em cada caso houve sucessivamente:

"...um serviço que foi progressivamente transformado em produto de consumo de massa (os alimentos, o vestuário, os livros, as finanças, os meios de transporte, o equipamento doméstico, os instrumentos de comunicação e de distracção), pela tecnologia que permite alargar o alcance do produto (o leme de cadaste, a caravela, a imprensa, a contabilidade, a charrua, a máquina a vapor, o motor de explosão, o motor eléctrico, o microprocessador)..."

Esta fase do texto é dominada pela busca das regularidades da história o que, mesmo quando não é convincente, acaba por ser uma fonte de divertimento estimulante pela multiplicidade dos factos e pela teia dos relacionamentos mais ou menos originais.

"Uma forma comercial dura enquanto o «coração» consegue reunir riqueza suficiente para dominar o «meio» e a «periferia»; entra em declínio quando o «coração» tem de investir demasiados recursos na manutenção da paz interna ou na defesa face a um ou mais inimigos externos".

Ao chegar a este ponto acabaram-se as "revisões da matéria dada" e o autor tem que iniciar o melindroso processo das previsões.
A "Breve História do Futuro" faz duas coisas que são de certa forma habituais nestas andanças;
(1) a regularidade histórica tão engenhosamente concebida quebra-se a partir de agora (no caso vertente a Ordem Mercantil deixa de ter um coração)
(2) num dado momento futuro o homem, que sempre foi joguete das forças naturais ou económicas, através de uma nova consciência, assume pleno controle do seu destino (tal como em Marx).

O que Attali faz quando tenta imaginar o mundo após a decadência da nona forma da Ordem Mercantil, com o coração em Los Angeles, é uma longa extrapolação linear de todos os fenómenos já hoje observáveis por qualquer leitor atento dos jornais.
Essa projecção por exagero conduz, ao longo do século XXI, com larga cópia de detalhes, sucessivamente a um Hiperimpério e a um Hiperconflito dignos das mais espectaculares super-produções catastrofistas de Hollywwood.

É então, quando o leitor já está aterrorizado, que Attali apresenta uma evolução alternativa ao Hiperimpério e ao Hiperconflito, a Hiperdemocracia.

"...algumas catástrofes´anunciadas demonstrarão aos mais cépticos, da forma mais crua, que o nosso modo de vida actual não pode perdurar: as alterações climáticas, o fosso cada vez mais profundo entre os mais ricos e os mais pobres, o aumento da obesidade e do consumo de drogas, a crescente violência da vida quotidiana, os actos terroristas cada vez mais assustadores, a impossível defesa dos ricos, a mediocridade do espectáculo, a ditadura das seguradoras, a invasão do tempo pelos bens de consumo, a falta de ar e de petróleo, o aumento da delinquência urbana, as crises financeiras cada vez mais frequentes, as vagas de imigração a chegarem às nossas praias, primeiro de mãos estendidas, depois de punhos erguidos, as tecnologias cada vez mais mortíferas e selectivas, as guerras cada vez mais loucas, a miséria moral dos mais ricos, a vertigem da autovigilância e da clonagem virão um dia despertar aqueles que dormem profundamente. Os desastres serão, cada vez mais, os melhores advogados da mudança."

De repente o historicismo é lançado às urtigas e regressamos a uma espécie de redenção pela tomada de consciência por parte de um "homem novo". Nem sequer falta, para completar a sensação do déjà vu, uma vanguarda esclarecida:

"No futuro, uma parte desta classe, composta por indivíduos particularmente sensíveis a esta história do futuro, compreenderá que a sua felicidade depende da felicidade dos outros, que a espécie humana apenas poderá sobreviver unida e pacífica. Estes indivíduos deixarão de pertencer à classe criativa mercantil e recusar-se-ão a estar ao serviço dos piratas. Tornar-se-ão aquilo que aqui designo por transumanos"

Para chegar a estas conclusões/desejos não era preciso ter discorrido sobre os mecanismos do processo histórico. O sonho de um acordar redentor da espécie humana sempre deve ter existido.
A questão que se coloca é: sempre que se trata do futuro tem que se descambar para previsões que não passam de desejos mesmo que legítimos ?

À partida só sabemos uma coisa segura sobre o futuro; ele será diferente do passado. A discussão passa então por tentar determinar o grau dessa diferença vencendo a dificuldade de distinguir o que pode ser considerado uma mudança radical, qualitativa.

Nos capítulos de análise histórica Attali associa as causas da transição às tecnologias e às rentabilidades mas pouco refere as relações de produção. Já no capítulo em que descreve o advento da Hiperdemocracia parece atribuir a tomada de consciência redentora às injustiças e atropelos.

Seria talvez mais avisado admitir que os anseios de liberdade e de justiça têm históricamente vingado se e quando surgem associados a saltos tecnológicos e de produtividade.
A Hiperdemocracia de Attali é demasiado voluntarista para ser convincente pois não se baseia num novo paradigma produtivo.


James Joyce flash interview

«But abide Zeit's sumonserving, rise afterfall. Blueblitzbolted from there, knowing the hingeworms of the hallmirks of habitationlesness, buried burrowing in Gehinnon, to proliferate through all his Unterwealth, seam by seam, sheol om sheol, and revisit our Uppercrust Sideria of Utilitarios, the divine one, the hoarder hidden propaguting the plutorpopular progeniem of pots and pans and pokers and puns from biddenland to boughtenland, the spearway fore the spoorway.»

(Finnegans Wake)

* * *

Repórter: James Joyce, boa noite. Antes de mais, parabéns. Foi um parágrafo importante?

Joyce: Sem dúvida. Todos os parágrafos são importantes, mas era crucial para nós completarmos este parágrafo. Sabíamos de antemão que iríamos encontrar um ambiente complicado, mas trabalhámos a semana inteira neste parágrafo, e acho que vimos hoje aqui os frutos desse trabalho.

R.: Está satisfeito com a atitude das suas palavras?

J.: Não tenho rigorosamente nada a apontar às minhas palavras. Hoje, como sempre, estiveram irrepreensíveis em termos de atitude, deram o seu melhor em prol do parágrafo, e agora há que continuar a trabalhar da mesma maneira até ao final do livro.

R.: Chegou a passar por algumas dificuldades. . .

J.: Hoje em dia, no Modernismo, já não há parágrafos fáceis. Temos de encarar todos com a mesma humildade. Mas julgo que, com muito trabalho, é possível criar as condições necessárias para sermos felizes.
E não queria deixar passar a oportunidade para dar mérito aos adversários. A gramática e a semântica estão em grande forma e causaram-nos alguns problemas, mas no final acabou por ganhar o mais forte.

R.: Surpreendeu muita gente ao não colocar a palavra “plutorpopular” logo de início, mas acabaria por trazê-la já na segunda metade do parágrafo. Porquê essa decisão?

J.: Ouça, eu trabalho com estas palavras há muito tempo, conheço-as melhor que ninguém. e as pessoas têm de entender que as minhas decisões, em termos de meter palavras no início, no meio ou no fim, são sempre tomadas em função das necessidades do parágrafo. A palavra “plutorpopular” correspondeu, trabalhou bem, mas comigo não há palavras indiscutíveis.

R.: Que comentários lhe merecem aqueles incidentes no final do parágrafo?

J.: Não sei a que “incidentes” se refere.

R.: Aquele “the spearway fore the spoorway” deixou algumas dúvidas a muita gente. . .

J.: Eu não quero entrar em polémicas, acho que vocês é que têm de comentar esse tipo de questões. O que eu acho é que a gramática terá talvez acusado algum nervosismo, o que é perfeitamente natural, e terá reagido a quente.

R.: Está a responsabilizar a gramática pelo incidente?

J.: Não vamos por aí, eu não estou a responsabilizar ninguém. A gramática é uma grande profissional, tem uma longa carreira, mas se calhar não está habituada a ser dominada desta maneira ao longo de um parágrafo inteiro. Como disse, acho natural que se tenha esse tipo de reacções a quente.

R.: Não sente que tem sido beneficiado pela crítica literária, especialmente a de pendor mais académico?

J.: Acho que só alguém com grande má-fé poderá fazer insinuações desse calibre. Já tive parágrafos muito prejudicados pela crítica literária, e qualquer análise isenta e imparcial vai mostrar que, se há alguém com razões de queixa da crítica literária, esse alguém sou eu.

R.: Vem aí já o próximo parágrafo. . .

J.: É um facto, mas vamos pensar parágrafo a parágrafo. É um livro longo, hoje ultrapassámos aqui um parágrafo difícil, agora há que descansar e, a partir de amanhã, começar então a trabalhar no próximo parágrafo, que também será muito dificil.

R.: James Joyce, obrigado, e boa noite.

J.: Obrigado eu. Boa noite.

Friday, February 1, 2008

Ele pegou numa concha para ilustrar a sua sem-abriguice


Passei as últimas seis horas a ouvir «The Opposite of Hallelujah», faixa que, até há sete horas atrás, assumi ser um mero arremedo death-metal da canção de Cohen/Cale/Buckley. Não sei como, mas Jens Lekman passou-me ao lado em 2007, e ter-me-ia passado ao lado em 2008 não fosse a bondade de terceiros, a inqualificável porosidade do meu filtro anti-spam, e o facto de eu ter horas disponíveis em lotes de seis.
Sempre me guiei pelo sábio princípio de que os arranjos domésticos de Stephin Merritt - xilofone, castanhetas, órgão a pilhas oferecido pela madrinha no Natal, etc. - eram o pináculo de qualquer coisa que devia ser transcendentalmente calamitosa, mas não é. Lekman levou a coisa ao estágio seguinte, parece-me. A confirmação segue dentro de mais seis horas.

(Os canais terrestres estão uma miséria tão grande que cheguei a tirar o Finnegans Wake da estante. Já lá o arrumei outra vez, mas foram momentos preocupantes.)

Oswald was a fag

A não perder, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo de Rui Ramos sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
A não perder, em Março, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
A não perder, em Abril, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Pastoral Portuguesa não tivesse incluido, em Março, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.

Deu Obama


Cada vez há menos candidatos nas primárias norte-americanas. Nos democratas a luta está restrita a dois; nos republicanos, a luta está mais renhida. Mas tudo deve ficar mais claro, senão mesmo decidido, na "super terça-feira" (que por coincidência este ano é a de Carnaval) que se aproxima. É inrteressante fazer-se uma espécie de "Political Compass" adoptado à política americana, o "Electoral Compass" (que encontrei no Véu da Ignorância). Eu fiz, quando ainda todos os candidatos estavam em disputa. Já nessa altura o candidato de que me encontrava mais próximo era Barack Obama. Situo-me à esquerda (economicamente) de todos os candidatos, e socialmente sou tão progressista como Obama. O candidato de que estou mais distante é Fred Thompson (que já desistiu); dos que estão ainda na corrida, é Mike Huckabee. Experimentem também vocês.

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