Wednesday, July 9, 2008

Apesar de não gostar particularmente de trufas...

... este blogue apoia efusivamente Bento dos Santos e deplora as recentes acusações de elitismo culinário de que ele foi alvo. As férias acabaram. Alguém invadiu o quintal na minha ausência. Desapareceram dezenas de laranjas pré-podres, o que agradeço. Também desapareceram as silvas e o lixo, o que agradeço. Deixaram a sachola, o ancinho e o balde, um gesto certamente admonitório. Prometo ter isto em melhor estado da próxima vez que vierem cá roubar laranjas. Não vi a final de Wimbledon. Apenas um mini-resumo, e as fotos nos jornais. Federer com cara de quem chegou de férias para encontrar um quintal sem laranjas. Andava há anos a tentar perder um jogo em Wimbledon, coitado. A selecção ainda não tem seleccionador. Mas o seleccionador tem um perfil. Nada me assusta mais no futebol do que o perfil. Nem mesmo o projecto. Sempre que o Sporting formula um projecto para contratar um jogador que encaixe num perfil, temos de passar o Verão seguinte à procura de colocação para o Milan Purovic. O perfil do novo seleccionador, segundo o projecto idealizado por Gilberto Madaíl, assenta no domínio do português, o que exclui automaticamente Hiddink, Pekerman e Humberto Coelho. Não há nada a fazer. Descobri há menos de vinte e quatro horas que todos os textos de Edmund Wilson incluídos nas recentes edições da Library of America (à venda na Amazon por uma quantia incomportável para o meu projecto) estão disponíveis online, gratuita e ilegalissimamente. Disponibilizarei o endereço a todos os interessados que tenham o perfil adequado.

Bovine TB Partnership Group

«Yesterday provided intriguing material for an examination of class in Britain today. The environment secretary, Hilary Benn, announced that after long thought he had decided not to permit the culling of badgers to stop the spread of TB among cattle. He said there was not enough evidence that it worked, and that a cull might make matters worse.
As always with the Department for Environment, Food and Rural Affairs, there was bags of new jargon to entertain us. Benn talked about the "testing and slaughter of reactors", and "randomised culling". Everyone seemed to know exactly what he meant.
And, as always in the Brown government, no matter how long a problem has been around it is never too late to set up a quango. This will be the Bovine TB Partnership Group, which sounds like an organisation lonely cows join to find new friends.
But the Commons divided almost entirely along party lines: Labour MPs were pro-badger; Tories were all for slaughtering the lot and turning them into shaving brushes.
»

(Da coluna de Simon Hoggart, que continua a produzir o espaço tipográfico mais cómico da imprensa europeia, apesar da feroz concorrência de Rui Miguel Tovar.)

Uma BT para os Hospitais ?

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"Um doente internado num hospital recebe o medicamento errado, investigado o incidente descobre-se que houve troca de fármacos porque há duas marcas com rótulos muito parecidos que causaram confusão. Relatado o problema segue um alerta para todos os serviços do hospital. Os efeitos adversos dos medicamentos, as quedas de doentes e as infecções contraídas em hospitais são as três áreas onde se verificam mais erros clínicos no mundo.
...
Num workshop da DGS sobre qualidade clínica, que decorreu na semana passada, em Lisboa, chegou-se à conclusão de que receber cuidados de saúde é tão perigoso como actividades tão radicais como escalar montanhas ou fazer bungee jumping e bastante menos seguro do que conduzir um carro, constatam estudos internacionais.
Dados internacionais sobre mortes acidentais apontam para 98 mil mortes atribuíveis a erros clínicos e bastante menos, 41 mil, devidas a acidentes de automóvel. Em Portugal não há números."
Público, "Ministério quer notificação de erros clínicos em todos hospitais", 7.07.2008
Em suma o cidadão corre mais riscos quando é internado em S. Maria do que ao praticar "street racing". Pelos vistos a Brigada de Trânsito, o novo Código da Estrada e os 300 radares comprados pelo MAI estão no sítio errado.

As duas faces do proteccionismo no arrendamento

Vale a pena atentar nos comentários que um tal “Luís” (não é Lavoura nem Rainha), que alguma relação terá com a Associação Lisbonense de Proprietários, tem vindo a deixar nos meus textos. É isso que faço agora. Diz Luís:
Fique sabendo que grande parte de Lisboa foi construída dos anos 30 em diante, com o objectivo de arrendar. Sim, foi a aplicação de poupanças. Deu emprego a muita gente e permitiu a muito mais ter habitação. De forma geral, os prédios foram construídos com esse fim específico. Não existiriam se assim não fosse.

É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.

Tuesday, July 8, 2008

Segurança

Há um argumento curioso dos defensores do arrendamento de casa – que geralmente defendem também a precariedade laboral. Estes senhores primeiro querem acabar com tudo o que seja segurança no emprego, para depois dizerem que “já não há empregos seguros” que permitam comprar casa - com a instabilidade laboral, hoje em dia quem não herdou uma casa ou não tem pais que lha ofereçam só deve alugar casa e não comprar.
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).

APONTAR NA AGENDA: NÃO DIZER PRO-CRI-A-ÇÃO

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Cara Manuela Ferreira Leite, apesar da sua idade e da sua experiência, deixe-me dar-lhe um conselho: nunca - mas nunca - utilize a palavra "procriação". Ninguém, a não ser padres e freiras, pode usar a palavra "procriação" e sair de mansinho de uma conversa, como se não fosse nada. Procriação cheira a incenso. Procriação cheira a naftalina. A rebuçados do dr. Bayard. A Farinha 33. Aos tempos em que só havia a A1 e a A2. Para sua informação, cara Manuela, Portugal já vai na A44. Portanto, ponha um post-it no porta-moedas: "procriação, não." Se de repente estiver no meio de uma entrevista à TVI e começar a pensar "ah, e tal, a procriação" - shut, ponha logo a mão na boca. Procriação, não.
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É que para um rapaz como eu, que está mais para a direita do que para a esquerda nas políticas mas que é liberal nos costumes, a Manuela Ferreira Leite está a defender o reforço de um estado social e da subsidiodependência, que é coisa de PCP, para depois se mostrar altamente conservadora em matérias individuais, que é coisa de CDS-PP. E assim, de repente, olho para si e vejo-me no pior de dois mundos. Estamos trocados, eu e você. Por um lado, quando se mostra muito preocupada com o estado do país, parece que se lhe poderia aplicar, com o devido twist, a blague de Nani Moretti: "Uma coisa de direita, por favor, diz uma coisa de direita." Por outro, quando fala de família e homossexuais, levo com um uppercut do punho destro que me deixa estendido no tapete.

Para ler o resto deste engraçadíssimo texto de João Miguel Tavares no DN de hoje clique AQUI

Monday, July 7, 2008

Uma terra sem senhorios

Nesta questão das rendas de casa há vários aspectos que acho espantosos.
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?

Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.

De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.

Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.

O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?

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