Monday, September 17, 2007

It's not writing, it's typing

Um texto cujo segundo parágrafo começa com a frase «My attitude to gray flannel has changed over the years» tem um longo caminho a percorrer, mas esta peça de Anthony Daniels na última New Criterion merece que o leitor resista ao impulso óbvio. É um excelente trabalho de demolição crítica, por vezes no limite da mesquinhez carrancuda, mas - perversamente - mais justo para com Kerouac do que muitas das elegias sonâmbulas que assinalaram o cinquentenário de On the Road. Façam o favor de ignorar o saloio arremedo de "Howl" que encerra o artigo e ponham os olhos no parágrafo anterior. «Prophet of immaturity» é uma proeza de condensação: forja um epíteto simultaneamente apto, venenoso e ternurento; e faz com que o «King of the Beats», que jornalistas culturais preguiçosos teimam em continuar a usar, soe ainda mais frouxo.

John Updike, na sua doida juventude, escreveu uma paródia brilhante da verborreia Keroualha. Desafio qualquer adepto confesso da escrita Beat (que nem sequer sei se existe) a submeter-se ao teste.
A vulnerabilidade a uma boa paródia não é necessariamente indicativa da dimensão de um escritor. Beerbohm "apanhou" Henry James sem lhe negar um milímetro de justa posteridade. Mas foi preciso Beerbohm - um génio - para o fazer. O problema com Kerouac (e com o desgraçado do Ginsberg já agora) é este: não é preciso um talento fenomenal para os parodiar; Updike fê-lo e fê-lo bem, mas poderia ter passado a comissão a um sobrinho competente ou a um dos fact-checkers da New Yorker. O único risco é o da redundância; é que o original já fez o trabalho quase todo:

«... This is where Dunkel and I spent a whole morning drinking beer, trying to make a real gone little waitress from Watsonville—no, Tracy, yes, Tracy—and her name was Esmeralda—oh, man, something like that.»

(Ando há quatro ou cinco anos a ler regularmente as colunas de Anthony Daniels e Theodore Dalrymple e só há duas semanas descobri que ambos são a mesma pessoa. Isto é daquelas ocorrências que desarmoniza por completo o pacato mundo de um leitor de revistas. A minha paranóia latente não precisa de estímulos, obrigado. We're through the looking-glass here, people. Não me surpreenderia que o senhor também escrevesse meia dúzia de blogues por aí.)

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