Friday, November 17, 2006

Écharpes semi-cinéfilas, toutinegras com catarro, e outros problemas

Por vezes, ao reler o que aqui foi postado em certas madrugadas, insinua-se em mim a dúvida: foi ou não o Pastoral Portuguesa assaltado por esquadrões de hackers deturpadores da realidade, metódicos na sua malícia e implacáveis na sua insolência?
A resposta a essa questão poderia servir de alavanca a coisas interessantíssimas, mas, francamente, usar as circunstâncias como desculpa para fracassos pessoais é avenida moral de treinador de futebol, não de exilado com sofá novo. Portanto limito-me a usar este post vespertino- numa altura em que me sinto inusitadamente sadio, lúcido, confiante - para dizer aquilo que tem de ser dito:

. as insónias passadas num sofá são completamente diferentes das passadas na cama, especialmente quando o ecrã do telemóvel se ilumina de repente às quatro da manhã, produzindo num tecto até então monotonamente branco um efeito-sombra semelhante à cabeça de uma toutinegra com um cigarro no bico;

. da diferença entre um chibo e um badalo: um chibo é específico nas suas denúncias, enquanto o badalo é estridente, mas vago;

. a senhora que limpa as escadas e corredor do meu prédio (com aspirador, já que todo o complexo é alcatifado) estendeu-me hoje um metafórico cachimbo da paz, depois de um lamentável desentendimento em Agosto ter amargado a nossa relação durante os últimos meses: lançou-me um sorriso pleno de solidariedade e simpatia quando me viu entalar os dedos na portinhola do correio - sorriso que, suspeito, manteve sem esforço durante o resto do dia;

. a écharpe que estrangulou Isadora Duncan fora-lhe oferecida pela mãe de Preston Sturges;

. "a vida é uma estrada bifurcada"™;

. segundo Plutarco, Alcibiades deu um murro a Hipponicus, não por estar enfurecido, ou ter qualquer disputa com ele, mas apenas "pela piada do gesto, e por ter apostado com alguns companheiros". Da próxima vez que for a Newmarket e meter umas libras numa pobre pileca envelhecida, vou pensar no arco evolutivo do meu hobby de fim-de-semana e sentir-me-ei um bocadinho mais civilizado;


(Pois, e pediram-me que liste aqui cinco manias minhas; asseguro a desafiante que de imediato lancei mãos à obra, encontrando-me já na fase derradeira, que implica seleccionar as menos abomináveis da pré-lista de setenta e oito. Mas penso que uma, apesar de recente, é óbvia: escrever posts cujo título é mais interessante que o conteúdo.)

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